| Viajantes> Pedro Leitão, jornalista | |||||||||||
| Versão provisória de 6 de Maio de 2003. O texto a seguir apresentado respeita a escrita original do seu autor. No entanto, a sua divisão em capítulos é uma opção nossa por forma a tornar a sua leitura mais fácil. Ao longo das próximas semanas serão apresentados os restantes capítulos... | |||||||||||
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PEDRO LEITÃO 1] Ando aqui há duas horas, na plataforma, esperando meu filho mais velho, que regressa de férias, os senhores hão-de saber o que são saudades, ainda há quinze dias, se tanto, o vi partir deste mesmo cais, e já as saudades me moem. Calculei mal a hora da chegada, foi o que foi. Para alegria minha, esperava-o ver sair daquela automotora tristonha, que, disciplinadamente, há coisa de três quartos de hora, estancou, toda ela suspiros, a meus pés, despejando uma leva de indefinidas caras, haveriam de ser turistas que chegavam do infinito, desse infinito projectado, ao longe, pela via férrea. Vim cedo, acreditando, piamente, que seria aquela composição, marcada pela hora, a trazer-me, ileso, o filho. Pois não o trouxe, e outra, lá na sua vez, haveria de cumprir aquele concreto destino, por uma tarde de Agosto. Mais uma hora de espera, só mais uma, paciência, há-de vir no próximo, decerto os transbordos atiraram-no para o próximo comboio, que chegará tão tristonho e suspirante como o que chegou agora mesmo, há coisa de três quartos de hora. É a mecânica. E, afinal, contando bem este tempo, dou comigo aqui há duas horas, deambulando pela velha Estação de Braga, a plataforma da linha número um, essa centenária linha número um, que sempre deu fuga fácil a quem saísse, em mal chegando a Braga, depressa ficara vazia, como sempre foi, melhor assim, porque, em tal lapso, de memórias também depressa se encheu este meu velhinho cais de acenos; se hoje espero, depois de há quinze dias ter acenado com o desejo desta espera, também há 40 anos não deixei de fazer exactamente o mesmo. Era a África o destino da linha número um, cá para mim não havia outro, mas a África, pela noção dos meus tenros anos, não ia além do fundo visível da linha número um, lá onde, depois da partida deste cais, o comboio desaparecia aos poucos, com seu elegante serpenteado, rastejando como cobra andarilha. O entortado da forma, além da locomotiva fumegante, cada vez mais minúscula, deixava enxergar os últimos acenos de lenços brancos, brancos lenços de quem já longe fosse, eram mãos fora de janelos andantes, ora assim mesmo ainda parece que vejo meu pai ao longe num longo aceno, naquele dia em que partira para África, oh! raios o partam, que não pára de acenar. É ele ainda que acena, não é mãe? Pois é, filho, acena-lhe tu, que ele ainda te há-de ver. E perdido então o comboio das vistas, meu pai já estava em África! Saltasse a última carruagem aquele ponto concreto, à distância tremelicante pelos lampejos de muita ferraria reluzente, e , zás, o comboio haveria de pôr asas para vencer algum precipício que nesse além houvesse. 2] Pois ando aqui há duas horas, na plataforma, os senhores hão-de desculpar-me a intromissão, são as saudades..., estou a falar, esclareça-se, com um pequeno grupo de ferroviários, novatos de cara e de ofício, em momento de tolerado descanso, enquanto esperam por novas ordens, aqui na estação de Braga, lá pelo fim desta tarde de sábado, aquentado Agosto, já estarão longe, levados por outros comboios, à certa nunca mais os verei, o que é pena, porque há sempre enigmas a desflorar em cada ferroviário. Pois não imaginam quanto gosto faço em estar aqui, e, mais isto e mais aquilo, dou comigo a fazer-lhes uma prédica contra a inconveniência dos modelos bárbaros das antigas retretes da velha gare, Aquilo, senhores, era obrar de cócoras, como antre o milho, o único luxo estava no direito a alguma intimidade e a pousa-pés, de porcelana modelado, para ajudar à boa pontaria de nadegueiras aflitas. Quem ler soubesse e porventura descaísse, ligeiramente, os olhos para aquela porcelanazinha a seus pés ficava a saber, por gorduchas letras em alto relevo, que eram louças da afamada marca "Valadares", o que não aquecia, nem arrefecia, quando muito distraía o incómodo da posição. Mas melhor, muito melhor do que isso, se acaso as vistas deambulassem por outros ângulos, em tais momentos de suave alívio, eram os brejeirentos escritos que viandantes, a coberto do anonimato cobarde e decerto sem grandes pressas, deixavam registados naquelas paredes de solidão nenhuma, como marcas indeléveis de talentos pataqueiros, a glosa variava entre o afoito e a insinuação, "Neste lugar solitário toda a vergonha se acaba, todo o cobarde faz força, todo o valente se...", vejam-se lá as coisas que não inspiravam as antigas retretes "Valadares"! Mas era o que havia de melhor, senhores... Pois estou eu aqui há duas horas e ainda agora me não escapou também, nesta plataforma, a manhã pieguenta em que a família toda viera despedir-se da Belinha, serviçal quarentona com bons dotes, que partia para o Brasil, chamada por carta de maridão, para afinal regressar de lá mais matrona do que senhora, já os cravos floriam, o dianho da mulher estava aflitinha de todo, Ele há retrete na carruage? A partida era daí a nada e não é que lhe dera para verter águas à última da hora, lá na sua terra era só escachar as pernas e esguichar grosso, saia abaixo, para a berma, mas aqui não, Vá ali num instante, até parece que ainda estou a sentir aquela contrariedade do Chefe da Estação com sua altiva condescendência, boné branco a pontificar em uniforme castanho escuro, hirto na compostura, apontando a bandeirinha vermelha, esmeradamente enrolada, na direcção dos lavabos, Vá ali num instante e volte já! O ramal de Braga, senhores, por esses tempos, não ganhava para luxos; até Nine, fosse a passagem de primeira ou de segunda classe, a soltura ficava em casa, que as carruagens ao serviço do ramal não se interligavam para abrir caminho ao "WC", como as do "foguete", o comboio rápido, que demorava umas seis horas só do Porto a Lisboa; entrássemos numa delas, pela portinhola respectiva, e não mais se cirandava para parte nenhuma, era o mesmo que entrar num cubículo, assento corrido por uma banda, assento corrido por outra, caras frente a frente, qual diligência californiana, cada carruagem, de um verde escurecido, haveria de ter, que me lembre, uns quatro compartimentos assim. Só uma vez por outra lá entrava no conjunto, atrelado, carruagem a modos de carro eléctrico, com largueza de espaço em seu interior, aí, sim, já se podia desenferrujar os ossos, até tinha varandim e alpendre de ferro trabalhado, atrás e à frente, por exigência simétrica. Os revisores refugiavam-se debaixo daqueles alpendres, às vezes aventuravam-se até às escadinhas de acesso à carruagem, dum lado e doutro, e em bom andamento, espreitavam, perigosamente, o percurso, lá uma vez por outra, por gozo, fincavam um pé no último degrau e deixavam ir o outro suspenso, balançando-o ligeiramente, com as mãos firmes no varão. Pois é verdade, senhores: por falta de "WC" no comboio, o bom labrego, português de Braga, que ao Porto fosse uma vez na vida, de cesta merendeira, ficava azougado de todo com tanta falta de humanidade. Mal entrasse neste cais era um degredado, quase que lhe diziam Anda, desenrasca-te! Calhava de estar já dentro da carruagem e sentir aquela vontade indómita de evacuar, para, na santa ignorância do horário de partida, correr, indiferente, à retrete da estação, Esta porra há-de esperar. E descendo calças e ceroulas, despontava-se-lhe logo uma presuntada de céltica raça, praguejava então contra o mau jeito, Pagar bilhete e ainda tenho de arrear à caçador; vai daí, a perturbar tais reflexões, vinha a mulher de lenço de merino pela cabeça gritar-lhe cá do pátio lá para dentro que a geringonça ia de abalada, não tardava, e, passo para lá, passo para cá, num bater de socos suplicante, pelas almas pedia ao Chefe da Estação que esperasse pelo seu homem, que ali estava, coitado, às voltas com a tripa. Oh! senhora, isto não é à vontade do freguês, ninguém o mandara, na hora, à retrete. Vou dar partida ao comboio, horas são horas. Para a pobre mulher aquilo era o mundo a desabar, Vem-te home, sai-me dessa loca, ai senhores, já um silvo atordoante ecoara por toda a gare, e o raio do celta lá saía, enfim, dos lavabos, aviltado, carcela e cinto por apertar, fralda ao léu, mal agarrando calças ainda inseguras, aos tropeços até à plataforma, Amanda-te, mulher, amanda-te para a carruage!, e com todas as aflições lá saltava, ele mais ela, com o "quimboio" a fugir-lhe, lentamente, dos pés, rapazolas de abalada para a tropa compraziam-se com a troça, Oh! velhinho, veja se não traz o calhau colado às ceroulas, e até Nine a galhofa reinava, com risos desbragados. ========== ========== Pois, meus senhores, eu cá sou do tempo, e só passaram 40 anos, em que partir da Estação de Braga também era um acontecimento patrioteico. Um certo sargento lateiro em fim de carreira, que desposara, havia trinta anos, uma dama braguesa, modelo Dona Aurora, tutu para dentro, tutu para fora, e bem abonada de peitos, vinha a cada passo a este cais despedir-se do filho único, que andaria cursar guerrilha de alto gabarito na Academia Militar ou na Escola do Exército. O rapaz botava farda de gala, cinzenta dos pés à cabeça, camisa branca, preta gravata a condizerem com aquele velho tom castrense, mais boné da mesma cor, lá com seus prateados na pala, que deveriam meter respeito ao magala mais pintado em rebeldias. Pelas tardes de domingo, ainda longe vinha a hora do comboio, o galante acompanhava sempre os pais ao vai e vem pelo Passeio dos Tristes, que circundava o miolo urbano da cidade, Rua do Souto, Rua do Castelo, Rua dos Capelistas, Rua Justino Cruz, nada mais do que esse quarteirão central. E não é que já ia, por essa maré, primorosamente fardado, em pose de general e a passo a modos de marcha fúnebre, chegadinho à mamã, a mamã de braço dado com o papá, que trajava à paisana um fato cinzentão, senhor de uma bigodeira à velho coronel prussiano, rosto de lavrador nutrido, e uns pontos negros a despontarem-se-lhe no nariz batateiro. O filho gozava por essas marés licença de fim-de-semana, concedidas de tempos a tempos. E com uma carreira risonha pela frente, insinuada pelo pomposo uniforme, a morder de invejas os polidores daquelas esquinas, que à vista dele não passavam de uns cábulas, condenados a mangas de alpaca, havia de aproveitar os restos da folga, até à partida do comboio, para impressionar com os bordões o que os seus dotes naturais vez alguma conseguiriam seduzir. Fosse ele reduzido à insignificância geral dos mortais menos afortunados, e veríamos! As meninas do liceu, já a puxar corpinho, faziam-se então àquelas ruas, em grupos, para lançar o olhar furtivo a namorico há muito debaixo de olho (as liberdades daqueles tempos, senhores, só quase permitiam os domingos para que andassem atrás dos amores da sua vida). Ao primeiro embate, tomavam-no por manequim, haveriam de teimar que o garção saíra, sem tirar, nem pôr, da casa de fardamentos do velho Vilela, na Rua do Souto, que Deus tenha. Como fosse Domingo e a loja estivesse fechada, decerto perderiam a aposta, se fincassem o pé na jura. Ora, consistindo o Passeio dos Tristes numas quantas voltas ao quarteirão para os que iam e vinham, estava visto que as donzelas haveriam de se cruzar com ele umas poucas de vezes seguidas, a matemática concedia dez minutos, não mais, a cada um daqueles reencontros fugazes, só não era certo o exacto ponto de cada intercepção, para isso seriam necessários aturados cálculos à média horária do passo, compassado, do janota e seu paternal séquito e do andar de procissão das meninas, o que a tanto ninguém metera ombros. Às primeiras voltas, o jovem cadete ainda escapava como forasteiro distintíssimo, daqueles a quem se desculpam certos excessos de elegância. Mas, lá pelas segundas e terceiras voltas, o pano caía de cima abaixo, quando aqueles apurados olhos femininos descobriam no embuste uma cara conhecida, e de ginjeira, Olha, olha, o Chiquinho cagão! Até parece o Rei da Prússia. Deu-lhe para boa, não há dúvida. Aí pela vigésima volta, o gozo miudinho já levava uns bons quilómetros de expansivo riso. E para evitarem descomposturas, as raparigas desviavam-lhe, levemente, o olhar malandro, simulando uma súbita desatenção por algo exposto em montra mais luzidia. A pândega assim corria animadíssima até um pouco antes do cair da noite. Era então que o felicíssimo casal e seu promissor rebento- até ali de mala guardada, por obséquio, na Pastelaria Benamor- iniciavam, solenemente, a descida aqui à Estação de Braga, os carros de praça da Arcada muito ganharam à custa deles, tantas foram as vezes a andar de lá para cá, podem-no crer, meus senhores. Pois chegados a esta plataforma, suas excelências tomavam logo a dianteira, só não havia mestre de cerimónias que abrisse alas, nem passadeira de púrpura cor que apartasse dali os magalinhas, essa ralé então fardada de bombazina cinzenta coçada, com bivaque enfiado por debaixo das platinas, que transformava a gare numa enxovia até à partida do comboio, Ó pá, o gajo há-de ser tinente! Por reflexo condicionado, alguns faziam-lhe a continência, perfilados; outros, duvidando da patente, pois achavam-no novo de mais para puxar galões de oficial subalterno, detectavam algo de diferente naquele enfardanço, mediam-no de alto abaixo. Depois, coçando a nuca, rodavam o tacão, viravam costas, e, já de mãos nos bolsos, assobiavam ostensivamente, o que empertigava logo o paizinho do nosso menino, por ser pouco dado a insubordinações da soldadesca, não fosse ele sargento, Sargento Ajudante! O estar à civil não quer dizer nada, ouviram, seus teros? E, já exaltadíssimo, era ele quem mesmo decidia puxar dos galões a praças e recrutas, a modos de desforra que compensasse aquele desdém votado ao filho, Que ainda há-de ser vosso capitão e, de caminho, major, não tarda! Acto contínuo, ia ao bolso do casaco, tirava a carteira, remexia papeis, desenterrava cartões e, lá por fim, dizia, triunfante, Cá está! Era o seu bilhete de identificação do Exército, com foto que o punha mais novo uns cinco anos. Erguia-o bem alto, para que não restassem dúvidas de que estavam diante de um respeitável representante da classe dos sargentos e digníssimo progenitor de um major em gestação, ora tomem! Ordenava, então, aos insurrectos que lhe batessem a pala, aqui mesmo nesta gare. Os tropinhas, claro, acobardavam-se, pelo vislumbre de tanto autoritarismo (os filhos do povo tanto levantam a crista, como a baixam, é por essas que as revoluções não andam, nem desandam, meus senhores). Tinham medo de ir bater com os costados ao Forte, pelo menos cuidavam que um sargento podia mais do que um capitão; de bem, se não livrasse um tipo da tropa, era com os cordelinhos que o safava de ser mandado, com canhota de atirador às costas, para o cais de Alcântara, a caminho de África; de mal, muito menino seria para as tecer! O Forte era o presídio militar, uma choça que ficava lá para Elvas, onde iam penar refractários, refilões, repontões e toda a cáfila de indisciplinados ou de traidores à pátria. Elvas havia de ficar a um dia de comboio, só isso assustava, Cruzes canhoto, antes a morte do que tal sorte! Pois assim vergados à voz de comando do lateiro, que até já havia apalavrado cunha para apressar a reforminha como tenente chico, os magalas lá levavam, enfim, as pontas dos dedos unidos à testa, e, esticando a palma da mão, condescendiam numa continência “à foge que te agarro”. Dando-se por quitado em tal refrega mental, que repunha a disciplina, o sargento afastava-se, com altivez, da turbamulta, recompondo casaco e colete, gravata e colarinho, punhos e botões, para regressar às saias meiatijelentas da mulher e ao uniforme garboso do filho, que continuaria a valer tanto como o papel de embrulho aos olhos daqueles mancebos. Estava-se então quase na hora da partida, as carruagens estendiam-se, certeiras, pelo correr desta plataforma, saibam os senhores que aqui chegavam sempre ao empurrão de locomotiva sôfrega, resfolegando de mil cansaços, em manobra de marcha atrás, que espertava a atenção breve dos labruscos moços, banzados com a técnica, Ó Tone, destas vacas sem cambão não temos, nós, lá em Sobradelo, para arrecuar a carroça, ó não? Pois isso... Ora, a ordem para o embarque, mal as carruagens aqui estancassem, essa, senhores, ninguém a dava, nem mesmo o sargento à paisana se atrevia a organizar um embarque ordeiro, em dois minutos já havia janelos com vidraças descidas, e um enxame de rostos a assomar de sorriso arreganhado, gozando de camarote a triste figura dos que ainda entrassem aos encontrões. Por mor do rebuliço, o mal ou bem-parecido cadete ficava-se para último, recebia as derradeiras despedidas da senhora sua mãe, que não parava de passar a mão pela farda, sacudindo, ao de leve, ora uma linhazinha teimosa, ora algum cabelito oleoso, ora uns respingos de caspa coladiça pela laca, enquanto lhe lembrava que não se esquecesse de passar em casa da Tia Irene, com a tijela da marmelada e o frasco do mel, se acaso fosse ao Bairro Alto, Já mandei dizer por carta que a encomenda ia pela tua mão... Emproado, o senhor seu pai instruía-o com recomendações sumárias sobre deveres, Um oficial aguenta as urinas, sem tugidos nem mugidos, ouvistes? Não esqueças que no Ultramar um homem quer-se teso... Aos poucos, este cais, senhores, ia ficando deserto, um a um já estavam todos embarcados; depois, era só esperar pelo primeiro solavanco, para que a gare começasse a correr, lentamente, como corre um filme na tela, até parecia que não era o comboio que andasse. De cabeça ainda fora dos janelos, a soldadesca podia então gozar a atitude patética do sargento, correndo tropegamente, com as pernas arqueadas, aqui na plataforma, à compita com o lento afastar do comboio, gesticulando para o filho que dizia adeus com o boné. E em tom vibrante, à despedida, gritava-lhe deste cais, como se gritasse em desespero de causa, A Pátria, a Pátria, tudo pela Pátria! Uma saraivada de vaias e uma chuva de manguitos desabavam-lhe, então, daqueles janelos, era a soldadesca, já a salvo de retaliações, que se desforrava, alegremente, sem peias para todos os impropérios, Chico, rabicho, gatuno, filho da p...! Certo seria que só por azar, só mesmo por tremendo azar, o tornariam a ver. De mais a mais, nem ele seria capaz de os reconhecer um a um, se acaso houvesse uma próxima vez, tantas são as caretas que correm mundo. Enfurecido com aquela patacuda, o sargento em fim de carreira acabava derrotado, no fim desta plataforma, feito fanfarrão, a destilar ameaças atrás de ameaças, em altos berros, cuidando que ainda fosse ouvido, Eu que vos acasse, eu que vos acasse aqui, e vereis! Depois, perdida a sensação de um último silvo já longínquo, mas pelo vento da noite trazida até aos sentidos dos que aqui ainda se apeassem, como indicação infalível de que o comboio estaria a vencer o apeadeiro de Ferreiros para se lançar em desenvolta marcha, esta Estação de Braga, senhores, mergulhava em profunda letargia. De vivalmas já pouco pulsava daí em diante, o Chefe da Estação, esse recolhia-se, como ermita, ao seu gabinete, a este mesmo gabinete, em cuja entrada agora descansam os senhores, está tal e qual como o espiara da primeira vez, quando, pelo ano de 1961, embarquei, numa ida pela volta a Lisboa, para ver meu avô, que se apagou aos 103 anos, na Quarta-feira Santa de 1996, (só conseguia ser mais novo dezoito anos do que esta mui centenária gare, tomem boa nota da proeza do senhor José dos Santos Leitão, de sua graça terrena). Próximo capítulo a 12 de Maio. |
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