Publicado no jornal "O Entroncamento" de 16 de Julho de 2004

Dario Silva é o pai de “O Comboio em Portugal”, um sonho que está a crescer e a divulgar o património ferroviário nacional

Um projecto a andar sobre carris

É com um ligeiro sorriso que não hesita em afirmar que o comboio marcou os grandes momentos da sua vida. Apesar de não ser ferroviário, por opção pessoal, Dario Silva afirma-se um apaixonado pela ferrovia. Aliás, viveu sempre a uns escassos 300 metros da linha e até agora, depois de casado, a sua casa é pertinho da estação. "Não escolhi a mulher por isso, mas ela mora lá", brinca, explicando de seguida que não consegue mesmo passar muito tempo sem ver o comboio passar.

O pai de Dario é maquinista, o avô também trabalhava no meio. Foi assim que aprendeu a gostar de comboios. Era de comboio que todos os dias, durante oito anos, ia para a escola, a uma meia dúzia de quilómetros, ligando Couto de Cambeses e Ruílhe, e até no dia do casamento escolheu o comboio para o levar à igreja. "Ficava à porta do apiadeiro", justifica.

Apesar do gosto e dos largos milhares de quilómetros que faz por ano - quase todas as semanas vem de Braga a Lisboa - Dario não é ferroviário, mas sim foto-jornalista. Deixa um dos novos interregionais do final da tarde e comenta que vai aproveitar o resto do dia para fazer o ramal de Tomar pela primeira vez. Com a máquina num saco e o tripé às costas, Dario vem mais uma vez de Lisboa, mas hoje pára na lendária estação do Entroncamento. Depois, conta uma história de um indivíduo, emigrante no estrangeiro, que dizia que o Entroncamento, mercê do comboio, era o centro do mundo.

Pousa o material no bar da estação e fala então de uma aventura a que se dedica hoje de corpo e alma. Pelas suas mãos - baseado grandemente na fotografia - nasceu o site "O Comboio em Portugal".

Tudo começou em 1999, quando, num trabalho do curso de Comunicação Social da Universidade do Minho, teve que fazer um jornal online. O caminho de ferro foi a escolha imediata, mas o material era quase inacabável. "Mês após mês foram aparecendo coisas", lembra. Assim, em 2000, começou a procurar apoios ao nível da logística e da parte informática, ligando também o Instituto de Ciências Sociais da Universidade. Contou com a boa vontade de muita gente e o site arrancou. O objectivo passou a ser torná-lo no portal mais completo sobre a temática ferroviária. Hoje, tem perto de 700 Megabytes de informação. Até ao final do ano, Dario Silva, coordenador e grande impulsionador do projecto, espera dobrar este valor. Se chegar aos tais 1400 MB, tudo bem, se não, diz, também não faz mal. "Até agora tive paciência para ir devagarinho", explica.

Quando nasceu, "O Comboio em Portugal" era sobretudo um sonho. "Era demasiado novo para ter uma ideia com tão grande potencial", refere. Para além da criação de uma base de dados, Dario pensava ainda poder desenvolver o gosto pelo comboio junto de escolas. "Tinha 24 anos e queria fazer tanto", recorda. As coisas foram crescendo aos poucos e há bem pouco tempo, Dario recebeu a notícia de que o projecto ia ser apoiado pelo Programa Operacional Sociedade da Informação - POSI "para podermos pensar um bocado nalgumas ideias que estão na gaveta", afirma.

O site vai sofrer, assim, uma profunda remodelação. Dario diz que é uma nova fase de recomeço, já que a informação das várias páginas se encontra algo dispersa. Um trabalho ao nível da programação vai permitir que se torne mais fácil, tanto o trabalho como a consulta. Mas o espírito mantém-se. "O espírito é o de que há um serviço que deve ser utilizado". A temática, essa ganha nova dimensão e Dario uma maior motivação para continuar este seu projecto. "Depois de tudo o que passei, desistir agora é impensável", afirma. "Apesar das dificuldades, não estou cansado", acrescenta.

O ENTRONCAMENTO TEM UM LUGAR

"O Comboio em Portugal" está muito centrado na zona norte, nomeadamente Braga, ramal que Dario conhece como a palma das suas mãos. "Tudo se prende com a minha facilidade", explica. "Foi à base da fotografia que o projecto nasceu e isso envolve custos". Assim, as mais recentes fotos que estão no site (imagens de Lousado e Braga, do Algarve e da Linha do Corgo) fazem parte de trabalhos que Dario fez para a Refer.

Para o jovem fotógrafo, o Entroncamento tem lugar no site. "Parece-me fundamental falar do Entroncamento", explica. A história do Museu, Dario afirma acompanhá-la de longe, apenas pelo que vai lendo na imprensa, mas, mesmo assim, defende que "estamos no momento bom para que o caminho de ferro ganhe alguma força". É este o tempo das oportunidades para relançar este meio de transporte que ultimamente tem ficado algo esquecido. "Já que a minha geração não sabe muito do comboio, ao menos que as que vierem saibam melhor".

Por cá, houve contactos com a Associação dos Amigos do Museu Nacional Ferroviário - AMF, por alturas do colóquio do Dia Mundial dos Museus. Foi um contacto informal, mas que pode vir a dar os seus frutos num trabalho conjunto, sobretudo ao nível de agenda e de informação ferroviária relevante do Entroncamento.

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA EM BREVE NO ENTRONCAMENTO

Até 2008, Dario Silva tem um plano de actividades para o projecto. O "problema", afirma, é que "todos os meses tenho uma ideia nova". Além disso, Dario tem levado uma exposição fotográfica a percorrer o país. Tem já contactos com uma escola do distrito de Portalegre e também no Entroncamento. Era para ser neste mês de Julho, mas ainda não vai ser.

Dario explica que a exposição consta de 19 imagens, sendo que, para cada novo local, há algo de totalmente inédito. De cada vez que a exposição vai para um espaço, há um postal que é distribuído. A ideia é levar o comboio para fora do seu circuito habitual de visibilidade. Já esteve em bibliotecas e escolas. A intenção é que os postais possam chegar, por exemplo, a livrarias do país.

Até Dezembro, esta exposição chegará também ao Entroncamento ainda não se sabe onde. Ficará por cá - como é habitual nos espaços onde tem estado - duas a três semanas.

Por enquanto, as imagens deste projecto "O Comboio em Portugal" podem ser vistas em www.comboio.em.pt. Um trabalho que justificou ao seu autor o deixar de trabalhar na imprensa diária como foto-jornalista. "Foi a minha opção", explica, afirmando que acredita no projecto e o defende com unhas e dentes. "Não me canso de fazer isto", acrescenta.

Ana Geraldes