Jornal de Barcelos, 12 Maio 2004

Cultura: Exposição do fotógrafo Dario Silva na estação de Braga



No dia 22 de Abril, uma composição entrou pela primeira vez na gare da nova estação ferroviária de Braga. A bordo vinham as habituais figuras ilustres, que sempre se juntam para estas ocasiões - as únicas em que utilizam os transportes ferroviários.

Naquele dia, não foi apenas a imponente e moderna estação que foi inaugurada. Foi também o muito renovado Ramal de Braga (a maior e mis importante obra de modernização duma estrutura ferroviária feita na região em muitas décadas).

No fim da viagem, a comitiva comandada pelo primeiro-ministro tinha à sua espera uma exposição de fotografia, da autoria do fotógrafo barcelense (e colaborador do Jornal de Barcelos) Dario Silva: 30 fotografias que documentam as obras feitas no Ramal entre Lousado e Braga.

Apesar da sua juventude, Dario é, muito provavelmente, o maior fotógrafo português de temas ferroviários. A sua importante e exaustiva obra (que abarca todo o sistema ferroviário nacional) assume um carácter essencialmente documental. Como mais esta sua exposição volta a salientar. Metódico e apaixonado, Dario acompanhou todas as fases das obras e da transformação por que passou o Ramal de Braga (que tem o seu único ponto de paragem no concelho de Barcelos na freguesia de Couto de Cambeses, a terra natal do fotógrafo), construindo um espólio imprescindível de milhares de fotografias.

Expostas na própria gare da estação, as fotografias estão à mão de semear dos passageiros. Difícil é que não reparem nelas. Enquanto esperam pelo comboio, os passageiros vão apreciando as imagens. Uns, demoradamente, de ponta a ponta. Outros, talvez mais apressados, bastam-se com um relancear do olhar. Os comentários abonatórios (até pelo inesperado da situação que é ter uma exposição à disposição enquanto não chega a hora do embarque) são frequentes.

A exposição está montada como se fosse uma viagem no sentido da primeira composição que no mês passado (tal como aconteceu no séc. XIX, quando o Ramal entrou em funcionamento) ali deu entrada: de Lousado para Braga.

A par do seu carácter documental, a obra denota uma assinalável coerência no tipo de luz natural com que as imagens foram captadas (explorando muito bem a luz das primeiras horas da manhã ou do fim de dia, bem assim como alguma luminosidade nocturna). Assim construindo à volta da “viagem” uma serenidade só ao alcance da viagem em comboio.


Dario Silva, autor da exposição fotográfica, na estação ferroviária de Braga

Há imagens fortes. Marcantes. Como a captada de noite nas imediações de Nine: um viaduto rodoviário que passa sobre a ferrovia (que se sabe que está lá, mas não se vê; nem é necessário que se veja) dominado por um céu tremendamente azul. Uma imagem espantosa, que bem poderia ser um cartaz promocional de um filme de ficção científica (e neste sentido também panfletária ou programática, como que a dizer: ó vós, que criminosamente abandonaste a ferrovia, não vos esqueçais que o comboio também é o transporte do futuro).

Outra imagem forte surge já quase no fim da linha. Ao nascer do dia, três operários procedem à soldadura de carris, como se fossem porteiros do inferno. Um bom retrato (enquanto síntese) dum certo operariado neste tempo dominado pelo sector terciário.

Para além destas duas imagens fortes (que se apontam apenas a título de exemplo), há outras que ficam na retina. Talvez menos fortes. Talvez mais ensaísticas.

Numa delas, captada na estação de Famalicão, um passageiro entra pela imagem dentro sem se fixar. Deixando como que um rasto anónimo. Como todos os passageiros, não pertence ali. Não pertence à “paisagem”. Está somente em trânsito. A caminho de qualquer lugar. De regresso de qualquer lado.

A outra é uma paisagem. Uma estrada alcatroada que rompeu um monte e que, depois de uma curva e uma contracurva desaparece na paisagem rural que lhe surge em frente. O que é que isto tem a ver com uma exposição de um tema ferroviário? Só a um segundo olhar se percebe. Mas lá ao fundo, discretamente, vislumbra-se uma nesga da linha. O comboio passa aqui como em muitos outros lugares: discretamente. Quase sem deixar pegadas. Também por isso, dizem que é o mais ecológico dos meios de transporte.

Em resumo. A exposição cumpre bem uma dupla função. Antes de mais, é um apreciável documentário. E ainda por cima é feito com um discurso artístico coerente e esteticamente apelativo.

José de Coelho | 12 de Maio de 2004