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Nas Dunas
Por JOAQUIM FIDALGO
Quarta-feira, 09 de Julho de 2003
O meu amigo Dario, que é completamente apanhado por comboios - vale a pena visitar os seus projectos em "www.comboio.em.pt", ou então escrever-lhe para o "ramal.de.braga" -, já me tinha chamado a atenção: através de uma bonita fotografia (sim, que ele também é fotógrafo, e dos bons...) da capela do Senhor da Pedra, em Miramar, mostrava como é possível dar "novos usos a velhos materiais". Por sobre a areia, bem alinhadas, encostadinhas umas às outras, as velhas travessas de madeira em que, durante décadas, assentaram os carris dos nossos comboios, fazem agora um passadiço bem simpático de acesso à capela. As antigas bases do caminho de ferro, entretanto substituídas por aquelas sapatas de cimento ou coisa parecida, criaram novos caminhos que nos oferecem, mais perto dos pés e dos olhos, o gozo da areia, das dunas e do mar.
Sim, que não foi só o Senhor da Pedra a lucrar com esta oportuna utilização das robustas travessas de madeira que, imagino, sobraram por esse país aos milhares - quer das linhas que as trocaram pelo cimento, quer das outras tantas que, para mal dos nossos pecados (há lá coisa que se compare a uma viagem de comboio pelo meio dos montes ou das serras, ao Pocinho, a Chaves, ao Pinhão!...), foram desactivadas e são hoje pasto de ervas e matos. Não, não foi só o Senhor da Pedra. Ali mesmo, no seguimento para Norte, há um belíssimo trilho que serpenteia por uma boa meia dúzia de quilómetros, ininterrupto, até às bandas de Lavadores, ligando todas aquelas praias de Vila Nova de Gaia e permitindo que se passeie, devagar ou correndo, minutos e minutos por sobre as dunas, o mar logo ali, ao fundo. É uma maravilha, e é ver como, sobretudo ao fim-de-semana (mas também de manhã, mas também, e quanto!, à tarde, aos fins de tarde de sol poente de vermelho), as pessoas caminham aquele caminho, muitas, grandes e pequenas, elas e eles, correndo ou andando, mas sempre com espaço - e com tempo.
E não é só nas dunas de Gaia. Mais para sul, no vasto areal de Esmoriz onde já houve (saudades...) uma linda barrinha, também as travessas que seguraram os comboios se usam ali em passadiços e caminhos por sobre a areia. Travessas sólidas de madeira castanha, rijas, curtidas dos anos e dos pesos que ontem suportaram, hoje percursos afáveis para o ambiente sensível das dunas e para o gosto dos nossos pés que bem podem ir descalços.
Foi uma boa ideia, esta. É uma boa ideia, e imagino que não terá medrado só em Miramar, Francelos ou Esmoriz. Boa ideia pelo reaproveitamento de materiais que seria uma pena ver consumidos em fogueira ou encostados a apodrecer. E aquilo há-de ser madeira da melhor, para resistir o que resistiu e resiste ao sol, ao vento, à chuva, ao sal que a maresia nos traz... Boa ideia também porque nos aproxima da areia, da costa, do mar, esse mar que, de tanto e tão perto o termos, às vezes parece esquecido ali mesmo ao nosso lado. Riqueza tão rica que faz pena a gente dar-se ao luxo de a tornar banal - e de não a ver, sorver, fruir, cheirar, sentir, beber até à última gota do possível.
Nosso apontamento: a fotografia de que se fala é esta»»
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